As disputas internas no bolsonarismo ganharam mais um capítulo barulhento e público. Após trocar acusações com Carlos Bolsonaro (PL-RJ) sobre a edição de um vídeo da caminhada entre Minas Gerais e Brasília, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) passou a direcionar críticas diretas a Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e a figuras próximas ao filho do ex-presidente, como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos.
As declarações foram feitas durante uma entrevista ao podcast apresentado pelo humorista Carioca e evidenciaram o aprofundamento das divergências entre lideranças que, até recentemente, atuavam de forma alinhada dentro do campo da direita radical.
“Não faço questão de citar”
Ao ser questionado sobre sua relação com Eduardo Bolsonaro — chamado de “refugiado” pelo apresentador, em alusão à sua permanência nos Estados Unidos —, Nikolas respondeu de forma direta e demonstrou distanciamento total do ex-aliado.
“Eu não converso com ele e, sinceramente, nem faço questão de mencionar o nome”, afirmou o parlamentar.
Provocado sobre o apoio de Eduardo à marcha até Brasília, Nikolas minimizou o gesto e insinuou conveniência política. “Apoiar quando todo mundo já está apoiando é fácil. A essa altura, vira algo inevitável”, declarou.
Acusações de deslealdade e disputa de espaço
O deputado afirmou que Eduardo Bolsonaro teria tentado reduzir sua relevância eleitoral ao espalhar a narrativa de que sua projeção política estaria ligada ao empresário Pablo Marçal. Para Nikolas, o incômodo maior foi a tentativa de colocá-lo como alguém “desleal” ou “traidor” dentro do grupo.
“Ficar tentando convencer as pessoas de que eu sou desleal ou traidor… qual é o objetivo disso?”, questionou.
Nikolas também reagiu às cobranças por maior engajamento em articulações internacionais defendidas por Eduardo. “Ou eu sou irrelevante e só faço vídeo, ou eu escolho quando entro em alguma pauta. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo”, afirmou. “Não vou aplaudir quem tenta me pressionar.”
Ataques a Allan dos Santos e Paulo Figueiredo
O parlamentar ampliou o tom crítico ao mencionar Allan dos Santos e Paulo Figueiredo, acusando-os de promover promessas e previsões que nunca se concretizaram, especialmente no que diz respeito a supostas sanções internacionais e viradas políticas.
“Eu nunca participei de conversa alguma no exterior. Nunca fui chamado para isso. Como posso falar de algo que não conheço?”, disse. “Se um projeto só funciona se eu estiver nele, então talvez ele não seja tão sólido quanto dizem.”
Trump, sanções e o estopim da crise
O conflito se intensificou após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuar da aplicação de sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e iniciar negociações com o governo Lula, encerrando a disputa tarifária com o Brasil. Eduardo Bolsonaro passou a atribuir o fracasso da ofensiva internacional a aliados no Congresso — crítica que atingiu diretamente Nikolas.
Nos bastidores, a tentativa de usar pressão externa para impedir uma possível prisão de Jair Bolsonaro não avançou, o que agravou o desgaste interno entre os aliados do ex-presidente.
Reações no núcleo bolsonarista
As declarações de Nikolas repercutiram rapidamente. Paulo Figueiredo anunciou que responderá publicamente às críticas em seu programa. Influenciadores ligados ao clã Bolsonaro também reagiram. Kim Paim, aliado de Carlos Bolsonaro, convocou militantes a voltarem suas críticas contra o deputado. Já o influenciador conhecido como “João 8:32” acusou Nikolas de prejudicar articulações internacionais.
Em publicação nas redes, Paulo Figueiredo foi direto: “Nikolas sabotou o trabalho de Eduardo Bolsonaro e o meu na Magnitsky. Nenhuma articulação, nenhuma mobilização — apenas autopromoção digital.”
O episódio expõe de forma explícita um bolsonarismo cada vez mais fragmentado, marcado por disputas internas, acusações mútuas e uma batalha por protagonismo que ameaça aprofundar a divisão no campo da extrema direita.



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