Liderança à distância: como Bolsonaro mantém o PL em órbita mesmo fora do palco político

 


A autorização de visitas concedida pelo ministro Alexandre de Moraes ao ex-presidente Jair Bolsonaro produziu um efeito político imediato: a confirmação de que a liderança do bolsonarismo não depende necessariamente da presença formal no poder.

Nos bastidores, aliados tratam os encontros como parte natural do jogo político. Mas o episódio revela algo maior: a direita brasileira ainda não construiu um projeto coletivo capaz de prescindir da figura central de Bolsonaro. O resultado é um partido — o Partido Liberal — que continua orbitando em torno de decisões, sinais e orientações do ex-presidente.

Isso não é ilegal. Tampouco é surpreendente. O que chama atenção é o grau de personalização política que se consolidou nos últimos anos. O PL, que já foi um partido pragmático e fisiológico como tantos outros do sistema brasileiro, tornou-se uma legenda profundamente dependente da imagem e da narrativa bolsonarista.

O risco dessa dinâmica é estratégico. Partidos que se estruturam em torno de um líder tendem a ganhar coesão no curto prazo, mas pagam um preço alto em autonomia e renovação. Sem novas lideranças com peso próprio, qualquer instabilidade envolvendo o líder central se transforma automaticamente em crise partidária.

Bolsonaro demonstra, mais uma vez, que sua força política reside menos no cargo e mais na capacidade de mobilizar sua base e influenciar decisões. O problema para seus aliados é que essa centralização pode impedir que o campo conservador construa alternativas viáveis para o futuro.

A política brasileira já mostrou diversas vezes que lideranças fortes podem moldar partidos. O desafio é saber se esses partidos sobrevivem quando o líder deixa de ser o eixo absoluto do sistema.

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