Quando o senador Flávio Bolsonaro faz declarações que colocam instituições sob suspeita ou tratam o jogo democrático como se fosse opcional, o problema não é apenas o conteúdo das palavras. É o ambiente político que permite que esse tipo de discurso já não cause choque imediato.
O Brasil parece ter se acostumado a ouvir insinuações contra a democracia como se fossem apenas “posicionamentos”. Não são. São sintomas de uma cultura política que ainda não rompeu com a tentação autoritária.
A estratégia é conhecida: primeiro desacredita-se o sistema eleitoral, depois questiona-se o Judiciário, em seguida pinta-se a política como um complô permanente. Quando tudo vira suspeito, qualquer ruptura passa a parecer justificável. Não é um roteiro novo — é o manual clássico da erosão democrática.
E o mais preocupante não é que políticos adotem esse discurso. É que parte do público já não reage. A indignação deu lugar à normalização. A exceção virou rotina.
Nenhuma democracia sobrevive quando seus próprios líderes tratam as regras como obstáculos e não como fundamentos. E nenhuma sociedade amadurece politicamente enquanto aceitar que a disputa pelo poder seja conduzida com insinuações de ruptura institucional.
O Brasil não precisa de mais discursos inflamados sobre “sistema contra o povo”. Precisa de líderes dispostos a vencer eleições, perder eleições e respeitar o resultado — sem dramatizações, sem teorias, sem flertes com soluções fora da Constituição.
Porque quando a política começa a brincar com a ideia de ruptura, quem paga o preço não é um governo, nem um partido. É o país inteiro.


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