O principal alvo de críticas daqueles que são contrários ao modelo
cívico-militar é, justamente, a supressão das individualidades dos
estudantes. Na Bahia, por exemplo, onde estão funcionando 13
instituições de cunho militar, o Ministério Público Federal do estado
caracterizou o sistema educacional como “autoritário”. O órgão, para o
qual está em jogo a “liberdade de expressão”, solicitou que as escolas
deixem de interferir no corte de cabelo, cor das unhas e maquiagem dos
alunos. “Uma educação política ou cívica de qualidade se dá quando é
voltada para princípios democráticos, e não o contrário”, explica
Andressa Pellanda, coordenadora executiva da Campanha Nacional pelo
Direito à Educação, que estudou, entre 2002 e 2008, no Colégio Militar
do Rio de Janeiro. Para ela, a inconsistência do programa fica visível
quando tentam separar gestão da escola (e da disciplina) da parte
didática. A primeira fica restrita aos militares e a segunda, aos
professores. “Isso denota uma completa falta de compreensão sobre a
educação. Em uma escola, da gestão à merendeira, todos são educadores”,
diz.
Os colégios hoje regulamentados pelo modelo cívico-militar estão
concentrados em Goiás, Amazonas, Minas Gerais, Roraima e Distrito
Federal. No País, são 203 escolas cívico-militares que perfazem a média
sete no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Com mais
investimentos e com índices expressivos, a disputa para entrar nesses
colégios é grande. No Colégio Militar de Brasília, em 2017, houve 1.212
candidatos para 25 vagas oferecidas para o sexto ano, uma relação de
48,48 candidatos por vaga. De acordo com Pellanda, a seleção por meio
das provas é para estudantes filhos de civis. Para filhos de militares,
as provas não existem. Nesse caso, os poucos que passam são, geralmente,
de classe média ou classe média alta, e a questão socioeconômica dá um
caráter diverso à instituição. “Aqueles com maior repertório conseguem
notas mais altas e o Ideb, consequentemente, sobe”, diz Andressa. No
Ideb, que mede o fluxo escolar e as médias de desempenho nas avaliações,
as instituições de ensino militares têm média 7, e as cívico-militares,
5,6. A média nacional está bem abaixo, 4,9.Investimentos
A qualidade da rede de colégios militares e cívico-militares não está atrelada à gestão militar, mas ao investimento adequado. Se as escolas convencionais recebessem o mesmo investimento teriam certamente um desempenho melhor. No modelo proposto pelo governo, há dois tipos de investimento: direto, do governo federal, e indireto, do Ministério da Defesa, que abrange estrutura e recursos humanos. O salário dos professores é digno e as condições de trabalho também. O melhor remédio seria o investimento do governo em escolas de educação básica, e não necessariamente a construção de colégios cívico-militares. Mas o presidente, vindo do Exército, ainda insiste: “Se aquela garotada não sabe interpretar um texto, não tem que perguntar para o pai se ele quer uma escola com militarização. Tem que impor”, afirma. Esse é o problema do modelo pretendido por Bolsonaro: é impositivo e anti-democrático.

